A síndrome que afeta um em cada três médicos no Brasil

Publicado dia 2 de fevereiro de 2021

Jéssica Kuhn

Nos últimos meses, médicos e profissionais de saúde viveram uma verdadeira maratona contra um virus até então desconhecido enquanto viam sua rotina mudar completamente. Longas horas de trabalho, medo de infectar a si e aos demais, folgas cada vez mais distantes, plantões frequentes e estendidos, falta de equipamentos e material de trabalho adequados e suficientes geraram sobrecarga física, mental e emocional.

Um levantamento com médicos brasileiros realizado pelo aplicativo Medscape (aplicativo com notícias e conteúdo desenvolvidos exclusivamente para médicos e profissionais de saúde, oferecendo perspectivas de especialistas, informações essenciais sobre medicamentos e doenças, bem como conteúdo de educação médica continuada) mostrou que 59% dos profissionais que disseram sofrer com burnout e/ou depressão afirmaram que os problemas se intensificaram com a pandemia. A pesquisa foi divulgada no dia 11 de dezembro e feita com 2.475 profissionais, entre 9 de junho e 23 de agosto de 2020. Na pesquisa, um em cada 19 médicos afirmou pensar em abandonar a carreira para sempre por causa da gravidade do burnout que vem sofrendo. Entre os fatores mais citados para o agravamento do problema estavam a baixa remuneração, excesso de tarefas burocráticas e muitas horas de trabalho por semana. Além de interferir nas relações pessoais, de acordo com 79% dos participantes da pesquisa.

Outro fator relevante que tem causado estresse e depressão é o fato de os profissionais de saúde serem privados do convívio familiar e de amigos para evitar o risco de contaminá-los com o vírus.

Há uma justa indignação por parte desses profissionais, que sacrificam suas vidas pessoais e se isolam para proteger entes queridos enquanto veem a população saindo e se expondo sem necessidade no meio de uma pandemia.

Entenda melhor a síndrome

A “síndrome de burnout” é um distúrbio psíquico, descrito em 1974 pelo psicólogo teuto-americano Herbert Freudenberger. O transtorno é caracterizado pelo estado de tensão emocional e estresse crônicos provocado por condições de trabalho físicas, emocionais e psicológicas desgastantes.

A síndrome se manifesta principalmente em pessoas cuja profissão exige envolvimento interpessoal direto e intenso. Professores, médicos e policiais estão entre as classes mais atingidas.

O transtorno é, portanto, um esgotamento mental severo que está relacionado com o excessivo esforço físico, mental e até mesmo emocional, que é seguido de poucos momentos de descanso, descontração e lazer.

É comum confundir a síndrome de burnout com estresse, quando na verdade o estresse é um dos sintomas da síndrome.

Como tratar e prevenir o burnout

É importante estar atento aos sinais e buscar ajuda profissional. Muitas vezes os médicos negligenciam sua própria saúde priorizando cuidar do outro e não têm tempo para si mesmos.

Buscar terapia pode ser útil para identificar os sinais e ter mais qualidade de vida diante da crise que estamos vivendo.

O tratamento do burnout, além da psicoterapia, pode incluir o uso de antidepressivos.

Atividade física regular e exercícios de relaxamento também são altamente recomendados para ajudar a controlar os sintomas e até mesmo para prevenir a síndrome.

Os principais dados da pesquisa

Conheça abaixo os principais dados levantados pela pesquisa da Medscape entre médicos brasileiros:

  • 53% dos profissionais normalmente trabalharam mais de 40 horas por semana
  • 54% gostariam de ter mais reconhecimento pelo seu trabalho pelo engajamento ao combate à Covid-19
  • 34% gostariam de ter uma compensação financeira pelas horas extras trabalhadas
  • 60% se sentiam tristes ou deprimidos
  • 51% acreditavam estarem deprimidos por conta do trabalho e 53% achavam que esses sintomas impactaram no atendimento médico
  • 34% apresentavam quadro de depressão grave
  • 11% pensavam em abandonar a medicina por conta do burnout
  • 79% achavam que a síndrome do burnout interferiu nas relações pessoais
  • 33% já tiveram pensamentos suicidas
  • 5% já tentaram suicídio;
  • 74% acreditavam que o local de emprego não oferecia um programa para reduzir o estresse
  • Entre as atitudes realizadas para controlar o estresse, destacavam-se dormir (43% para os “millennials” nascidos entre 1980 e 1994)) e atividade física (45% para a “geração X”, os nascidos entre 1965 e 19679, e “baby boomers”, nascidos entre 1946 e 1964)
  • 44% reservaram um tempo para cuidar da própria saúde
  • 47% procuraram ajuda de um profissional

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