Jéssica Kuhn

Nas últimas décadas, a questão diagnóstica, especialmente na infância e na adolescência, ganhou grande destaque.

Comportamentos que nos chamam a atenção e com os quais não sabemos lidar recebem cada vez mais rótulos e status de patologias.

As escolas nunca encaminharam tantas crianças para avaliação neurológica. Diante de dificuldades comportamentais (comportamentos que chamam a atenção e com os quais não sabemos lidar), a escola faz um pedido de avaliação neurológica que já supõe a existência de um transtorno. E os pais muitas vezes são tomados de surpresa por essa demanda.

Eu estou me referindo, por exemplo, a alguns diagnósticos, como o de TDA (Transtorno de Déficit de Atenção, que pode vir acompanhado ou não do “H” de Hiperatividade) e do bem mais recente Transtorno Opositivo Desafiador (transtorno de comportamento infantil e adolescente caracterizado por comportamento desafiador e desobediente a figuras de autoridade). A causa do Transtorno Desafiador de Oposição é desconhecida mas provavelmente envolve uma combinação de fatores genéticos e ambientais.

As crianças e a medicação

O psiquiatra infantil norte-americano Leon Eisenberg (1922-2009) é considerado o pai do TDAH. Eisenberg contribuiu muito com o desenvolvimento dos conceitos modernos dos transtornos de comportamento e também na divulgação deles no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).

Antes de falecer, Eisenberg concedeu uma polêmica entrevista à renomada revista alemã Der Spiegel, dizendo-se desapontado e até arrependido ao perceber o quanto esse transtorno foi diagnosticado e tratado com medicação, em muitos casos sem haver necessidade.

A avalanche de diagnósticos de “Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade” (TDAH) vem acompanhada de um vertiginoso aumento da prescrição para as crianças de metilfenidato – droga tarja-preta, habitualmente usada no tratamento medicamentoso do transtorno. Vendida sob a denominação comercial de “Ritalina” e pelo sugestivo nome de “Concerta” (ainda que com “s”), entre outros, a substância química, um fármaco estimulante leve do sistema nervoso central, é estruturalmente relacionada às anfetaminas.

O fato é que tais transtornos têm sido descritos, diagnosticados e medicados de forma muitas vezes equivocada e intensa.

Doença, sintoma ou  comportamento?

A psiquiatria infantil tem baseado seu diagnóstico no comportamentalismo, na descrição e enumeração de comportamentos.

É verdade que os sintomas (os comportamentos) são sinais que nos ajudam a diagnosticar um problema ou uma doença. Mas a nossa mente e a nossa psiquê são muito mais complexos e não se reduzem a uma lista de comportamentos.

Nem sempre uma criança agitada, distraída, que fala muito e é inadequada em sala de aula – descrições comuns a crianças diagnosticadas com TDAH, por exemplo – é portadora de um transtorno que será facilmente resolvido por medicação. Ela pode precisar de outros tipos de cuidados e intervenções. Mas em todos os casos, ela precisa ter voz ativa, ela precisa ser ouvida. É preciso falar com a criança e saber ouvi-la, e não nos contentarmos como adultos a apenas falar sobre ela.

Um diagnóstico reducionista ancorado apenas no comportamento pode dar alívio aos pais pela falsa sensação de que sabemos o que fazer com a criança.

Mas quando nossa intervenção segue na direção de silenciar, a todo custo, o incômodo que as crianças e adolescentes nos trazem, corremos o risco de agravar ou produzir doenças em um sujeito ainda em formação, o que poderá interferir de forma decisiva desde muito cedo na condução de sua vida.

A psicanálise sabe que antecipar-se a uma patologia suposta não favorece o desenvolvimento e a saúde mental do sujeito. É preciso ampliar nosso olhar e a nossa escuta para obter uma sociedade com crianças e adolescentes mais saudáveis.