Jéssica Kuhn indica “A professora de piano”

Publicado dia 19 de agosto de 2021

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“A professora de piano”

Nacionalidade: França, Áustria, Alemanha
Ano: 2001
Direção: Michael Haneke
Gênero: Drama
Duração: 02:11
Plataforma: Netflix

Romance de Elfriede Jelinek transportado para a tela pelo cineasta austríaco Michael Haneke, “A professora de piano” nos apresenta Erika Kohut (Isabelle Huppert), brilhante instrumentista que, em vez de seguir carreira como concertista, acomoda-se como professora no Conservatório de Viena. Aos 40 anos, ainda mora com a mãe dominadora (Annie Girardot), com quem tem um relacionamento bastante conflituoso. Admiradora de Schubert, seus únicos deleites são o voyeurismo e a automutilação. Até conhecer Walter (Benoit Magimel), um jovem aluno que a seduz.

O início do filme mostra a relação problemática de Erika com a mãe, uma figura castradora, que a trata como uma adolescente e que provavelmente é a responsável por grande parte dos problemas que a afligem.

Erika também estimula esse comportamento por parte da mãe, permitindo que ela dite sua vida profissional. As duas ainda evidenciam esse laço doentio e praticamente inquebrável com o ato de dormirem na mesma cama.

“A professora de piano” é um estudo acurado sobre os construtos psicológicos de um perverso (“perverso” sob o ponto de vista da psicanálise). E de quebra, Haneke questiona o senso comum ao mostrar, com a personagem de Erika, que o perverso também sofre e pode sofrer muito.

Erika, não por acaso, se identifica com o início do declínio da saúde mental de dois compositores da música clássica que morreram loucos: Franz Schubert e Robert Schumann.

Schubert levava um estilo de vida que muitos chamariam de autodestrutivo.

O filósofo alemão Theodore Adorno chama de “o crepúsculo da mente” a fase em que Schubert ainda tinha consciência do quão terrível era estar perdendo-se de si mesmo. E destaca a trágica consciência da morte em sua última etapa de vida, quando sua obra se apresenta repleta de silêncios intercalados, como súbitas aparições de uma morte iminente. Sua obra final é como um passeio por uma paisagem desértica devastada pela morte, não por sua própria morte, mas pela Morte em si, com letra maiúscula. É música com consciência do vazio.

Erika deixa entrever que tem contemplado essa paisagem desértica, uma espécie de panorâmica do vazio e da plenitude ao mesmo tempo, quando afirma que nenhum crítico musical entende realmente o “Réquiem” de Mozart, já que este é um hino ao indeterminado, ao inefável. Algo que ela parece conhecer bem de perto.

Em seu universo simbólico, a linguagem musical desempenha um papel protagonista. Ela não perde a linguagem como ocorreu com Schumann, mas tampouco a linguagem lhe serve para aceder ao outro ou aos próprios sentimentos.

Interessante lembrar que Schumann começou escutando a nota dó dentro de sua cabeça. Logo ao dó se juntou o fá sustenido. Uns dias depois, começou a escutar uma orquesta inteira tocando dentro dela, e acreditava ser Mendelsohn que lhe enviava mensagens musicais. Por último, as vozes angelicais que lhe faziam tocar música celestial se transformaram em risadas de hienas.

Quando Erika fala da loucura de Schubert ou do “Réquiem” de Mozart, parece falar como alguém que sentiu na própria pele o sopro desse espaço vazio.

Erika não pode preocupar-se com o futuro porque sequer pode crer no presente. Seu autêntico drama é não poder crer no que já é. Seu sofrimento guarda muitos paralelos com o de Fernando Pessoa, o poeta da melancolia, que definia seu drama como a melancolia de não sentir, não viver, não ser ( “não sou nada”, “se ao menos enlouquecesse de verdade, mas não, é este estar entre, estar quase… Um interno em um manicômio é ao menos alguém”).

Eis, portanto, um filme forte e difícil de digerir: um verdadeiro soco no estômago.

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