Jéssica Kuhn indica “A última nota”

Publicado dia 8 de julho de 2021

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“A última nota” (“Coda”)
Nacionalidade: Canadá
Ano: 2019
Direção: Claude Lalonde
Gênero: Drama
Duração: 01:36
Plataforma: Netflix

“A última nota” (“Coda”) conta a história de um pianista famoso, Henry Cole, que vê sua esperada volta aos palcos ameaçada por sérias crises de ansiedade. É quando entra em cena a jornalista Helen Morrison (Katie Holmes), que decidida a escrever o grande artigo de sua carreira, tentará convencê-lo de que toque pela última vez. Surge então entre eles uma estreita cumplicidade.

Ótima interpretação de Patrick Stewart, que consegue transmitir a sensação de desnorteamento do personagem diante da vida e de desamparo frente ao futuro, bem como a sua angústia e desespero ao se flagrar fazendo algo cujo motivo não consegue compreender.

Em um desses momentos de lapso de memória, Henry “esquece” um trecho da obra que está executando ao piano, curiosamente a “coda”.

Coda (título original do filme) é a palavra em italiano que significa “cauda”. Incorporada ao vocabulário musical, ela designa, em uma partitura, a marcação do final de uma música, ou de um trecho musical.

O fato de Henry esquecer esse trecho final da obra, para a psicanálise é bastante sintomático. Um sintoma que carrega todo um significado. A coda aqui faz analogia com o final da música da vida.

As suas crises de pânico e lapsos de memória representam seu confronto traumático com a finitude e com a realidade da morte. Um homem que vê que seu tempo também está terminando, uma espécie de coda de sua própria existência, esta sim, impossível de ser esquecida ou negada.

A jornalista acaba se tornando uma espécie de ponte nessa difícil transição para o final da carreira, funcionando como um objeto bom que o ajuda a continuar se mantendo vivo.

Estamos diante de um homem que, frente à dor da perda e do sentimento de culpa, acaba por punir a si próprio ao perder por completo o gosto naquilo que mais lhe dava prazer na vida (tocar).

Ao entrar em contato com Helen, a lição que ele receberá é a de transformar a dor em algo positivo e a enfrentar os seus medos mais íntimos. Não muito diferente do trabalho da psicanálise. E isso só será possível quando Henry se permite visitar o seu íntimo mais profundo. Em um paralelo com o processo de análise: quando o paciente se dá e nos dá essa permissão, é aí que a psicanálise mostra todo o seu potencial terapêutico.

Nos minutos finais, encostado na enorme pedra com milhões de anos de existência, a personagem de Stewart nos remete à imensidão da natureza, que é muito maior e principalmente muito mais duradoura do que aquele homem. E para além de toda a simbologia, ela nos faz retornar ao início do filme e à narração daquela que o fez, justamente, parar naquele local: “Sem a música, a minha vida teria sido incompleta, como se eu não tivesse amigos ou lembranças”. E chega um momento em que elas (as boas memórias) são o que há de mais necessário para que a vida siga seu caminho.

O filme é ainda perpassado pelas reflexões de Nietzsche. Mais do que um filósofo músico, Nietzsche parece ter sido um músico filósofo. Um músico que chegou à filosofia a partir da música. Conforme suas palavras, “a música nos oferece momentos de verdadeiro sentimento”, pois “só a música colocada ao lado do mundo pode nos dar uma idéia do que deve ser entendido por justificação do mundo como fenômeno estético”. E… “a vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”.

Nestas citações, percebe-se o valor que o filósofo atribui à música, tanto para o pensamento como para a vida. Ela ocupa um lugar importante na estética de Nietzsche no que se relaciona à afirmação da existência humana.

“A última nota” também é um filme de muitos silêncios (como o consultório do psicanalista) e de paralelos interessantes entre a psicanálise, o poder da música (a mais subjetiva das artes, a que toca profundamente a nossa alma, aquela que já foi chamada de “a linguagem da alma”) e das belas paisagens da natureza, que representam o turbilhão de sentimentos e de vida que ainda existem e resistem dentro de Henry.

“A última nota” nos toca a todos justamente por nos dizer tanto sobre a fragilidade da existência humana.

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