Jéssica Kuhn indica “O gambito da rainha”

Publicado dia 7 de janeiro de 2021

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“O gambito da rainha”
Nacionalidade: Estados Unidos
Ano: 2020
Direção: Scott Frank, Allan Scott
Gênero: Série televisiva, drama
Duração: 1:00 aproximadamente (sete episódios)
Plataforma: Netflix

A produção baseada no livro homônimo de Walter Tevis, de 1983, adaptado e escrito para o cinema pelo diretor Scott Frank, chegou ao Top 10 de 92 países e foi a “número 1” em mais de 60 deles, entre os quais Reino Unido, Argentina e Israel. Com mais de 63 milhões de espectadores ao redor do globo, bateu o recorde de série mais vista na Netflix.

O intrigante nome da série remete a um estratégia utilizada nos primeiros lances de uma partida de xadrez. As diferentes sequências de movimentos possíveis no início do jogo são chamadas de “aberturas”, e o “gambito” (que significa uma ação destinada a enganar alguém) em questão é uma delas. Aliás, Garry Kasparov, o jogador de xadrez mais famoso de todos os tempos, e que também foi uma criança prodígio no jogo, foi chamado a dar sua contribuição à veracidade da série, entre outros enxadristas consultados para garantir o realismo das jogadas. Mas não se preocupe, você não precisa entender sobre o jogo para gostar do que vai ver.

A série conta a estória fictícia e fascinante de Beth Harmon (Anya Taylor-Joy), uma garota criada em um orfanato e que se descobre um fenômeno no xadrez. É uma descoberta gradual, e o filme mostra toda essa sua jornada, desde o exato instante em que ela começa a se interessar pelo jogo até sua ascensão fulminante, passando pelos momentos em que ela começa a se dar conta de seu talento excepcional e do quanto essa habilidade a ajuda a se sentir no controle das situações que atravessa – e por extensão, da própria vida. Este, aliás, é um dos pontos altos da série.

Entretanto, Beth precisa lidar com o uso dos medicamentos, nos quais se tornou viciada desde a infância. A estória se passa nos anos 50 e 60, em plena Guerra Fria, uma época em que o Valium (o ansiolítico diazepam foi comercializado pela primeira vez com esse nome), era um “calmante” amplamente vendido nas farmácias sem necessidade de prescrição médica e virou febre entre as mulheres, especialmente as donas de casa, que passavam por uma transformação de seu papel social no mundo e no casamento.

A série traz reflexões interessantes ao abordar vários assuntos, como abandono, luto, bullying, racismo, misoginia, dependência química, quebra de estereótipos e a própria temática das instituições de acolhimento (como orfanatos e hospitais psiquiátricos) e seus protocolos.

Isso sem falarmos na posição esquizoparanoide da protagonista, uma garota que luta para compreender o mundo exterior, criando seu próprio mundo mental cheio de regras e causando estranheza às pessoas que esperariam um comportamento mais previsível.

E aqui é preciso concordar com as palavras do psicanalista Contardo Calligares: “é raro uma obra me fazer sorrir sem renunciar a nada (e sem esconder nada) do que faz da vida uma experiência fundamentalmente trágica”.

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