Jéssica Kuhn indica “Os intocáveis”

Publicado dia 11 de fevereiro de 2021

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“Os intocáveis”
Nacionalidade: França
Ano: 2011
Direção: Olivier Nakache, Éric Toledano
Gênero: Biografia, comédia, drama Duração: 1:52
Plataforma: Telecine, Now

O ser humano tem um recurso psíquico importantíssimo: o lúdico. Esse recurso não é exclusivo da infância. Ele persiste na vida adulta e dá ao sujeito a possibilidade de brincar para obter prazer, tolerar e lidar com experiências dolorosas. Por isso, é comum usar de humor para contar uma história triste.

É nesse tom que “Os intocáveis”, que se tornou o filme francês de maior bilheteria no mundo, conta a história real de Philippe Pozzo di Borgio, ex-executivo da casa de champanhe Pommery, que ficou tetraplégico após um acidente.

Certo dia, a vida de Philippe (François Cluzet) se cruza com a de Driss (Omar Sy), um ex-presidiário e imigrante senegalês que mora na periferia de Paris. Driss é então contratado por Philippe para ser seu acompanhante terapêutico.

É quando os discursos segregacionistas são abolidos e esses dois homens privados de afeto comungam o ódio à condição de exclusão de ambos que dá-se o “verdadeiro encontro”.

Driss não é o técnico concorrendo à sua vaga de emprego, portanto, seu discurso é outro. E como diria Lacan, esse discurso comum, feito de palavras para não dizer nada, não é, portanto, o seu discurso. O discurso de Driss é singular e revelador de que ele não apenas está ali, ele está aí! E é por estar aí, que ele pôde ocupar o lugar de outro e se encontrar com Phillipe, ambos solitários em suas deficiências de vínculo.

Tudo parece funcionar num idílio amistoso, em que as diferenças não mais existem. Mas afinal, qual é a importância da diferença na estrutura psíquica?

Segundo Lacan, todo discurso parte do Outro, por isso, as diferenças exercem uma função fundamental na estruturação da singularidade. Derrida também já dizia que é a diferença que faz emergir a presença do outro. O filme, entretanto, vai no sentido contrário e faz inclusive uma apologia ao liberalismo psíquico.

E a Lei, lei com “L” maiúsculo, esta que representa a interdição do nome-do-pai, é desconsiderada. Várias cenas deixam claro isso: o descumprimento às normas de trânsito, a sobreposição do eu ao interesse do coletivo…

Escapar à castração (escapar às interdições) e preencher a falta é a fantasia de todos nós neuróticos que vivemos clivados. Não por acaso, esse filme nos seja tão cativante.

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