Jéssica Kuhn indica “Últimos dias no deserto”

Publicado dia 10 de junho de 2021

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“Últimos dias no deserto”
Nacionalidade: Estados Unidos
Ano: 2015
Direção: Rodrigo García
Gênero: Drama
Duração: 1:38
Plataforma: Netflix

Neste belo filme do colombiano Rodrigo García, filho do Nobel de literatura Gabriel García Márquez, nos deparamos com um olhar psicanalítico sobre Jesus e uma reflexão sobre a paternidade. Curiosamente, este “Últimos Dias no Deserto” é o primeiro filme de Rodrigo após a morte do velho Gabo.

Quem conhece a carreira do diretor, sabe que ele sempre foi um observador perspicaz da alma humana (desde sua estreia na direção em 2000 com “Coisas que você pode dizer só de olhar para ela”, sem falar no fabuloso “Albert Nobbs”(2011) e na ótima série “Em Terapia” (de 2008 -2010). Em “Últimos dias no deserto”, ele mais uma vez demonstra compreender e saber explorar muito bem os dramas existenciais da condição humana.

O filme trata do período de 40 dias em que Jesus ficou caminhando pelo deserto da Judeia, durante o qual ele refletiu, jejuou e foi três vezes tentado pelo diabo a deixar de lado seu sacrifício pela humanidade. Esse trecho dos Evangelhos (segundo Mateus, Marcos e Lucas) põe em evidência o lado humano de Jesus, ao mostrar os tormentos que ele teve de enfrentar até aceitar seu papel como Filho de Deus. Os Evangelhos descrevem o episódio de maneira sucinta, e García se aproveita disso para criar sua versão pessoal.

García faz com que Jesus (EwanMcGregor), em sua etapa final de peregrinação, já saindo do deserto para voltar a Jerusalém, onde em breve será crucificado, encontre uma família de beduínos: um pai (Ciarán Hinds), uma mãe doente (Ayelet Zurer) e o jovem filho do casal (Tye Sheridan).

O rapaz sonha conhecer outros lugares e ter uma vida mais interessante que a de seguir os passos do pai, mas se sente preso à obrigação filial. Há um conflito entre pai e filho, enquanto que a mãe fica ao lado do menino. “Resolva esse dilema a contento de todos os três”, diz o Diabo a Jesus, “e eu deixarei você em paz”.

A tentação que Satanás oferece a Jesus não é a vida eterna, ou o poder, mas a simples resolução de um conflito. Quer mais psicanálise do que isso?

Ewan McGregor, em um desempenho belíssimo, interpreta Jesus e Satanás ao mesmo tempo. Encontramos um Jesus insatisfeito por não ter conseguido se comunicar plenamente com seu pai depois de 40 dias passados sozinho em meditação e oração. Jesus, o Filho, assim como o filho do casal, também se encontra em conflito com o Pai.

O Jesus de García pouco lembra a figura divina: ele não faz milagres e está sempre em dúvida quanto a sua missão.

Se o Jesus de García é humano, demasiadamente humano, o seu Satanás também o é. Satanás se apresenta a Jesus como seu fiel reflexo, acentuando assim os conflitos internos do protagonista, como um embate psicológico de Jesus com ele mesmo – que deixa a linha tênue da dicotomia entre o bem e o mal.

Um dos melhores momentos do longa é quando Jesus pergunta ao Diabo como é já ter estado perto do criador, evidenciando assim seu fascínio por saber sobre essa experiência que ainda não teve em vida.

É dentro deste deserto de introspecção, tentações, dúvidas e questionamentos que Jesus, solitário em sua jornada, precisará encontrar-se através das suas próprias escolhas, sem contar com qualquer ajuda do criador.

A excelente fotografia de Emmanuel Lubezki e o deserto, visualmente poderoso, evoca e quase materializa o sentimento de inadequação, solidão e insegurança de Jesus frente à grandiosidade do Pai. Ao vê-lo questionar o Pai (Deus) e observar que não há resposta por parte do criador, apenas o seu silêncio, é fácil perceber que essa jornada é sobretudo uma luta psicológica.

O roteiro jamais transforma o pai do garoto num “carrasco”, afinal sua dificuldade de relacionar-se com o filho é análogo à falta de comunicação de Jesus com Deus – e o fato do pai querer que o filho aprenda a se importar com as coisas básicas da vida representa a mesma postura com a qual o Deus-Pai interage com Cristo, indicando a importância de que este encontre seu caminho por conta própria – e por isso não responde a seus chamados.

No polêmico “A Última Tentação de Cristo”, o escritor Nikos Kazantzakis e o diretor Martin Scorsese politizaram a dúvida de Jesus. Já Rodrigo García dá a ela viés puramente psicanalítico: um pai e um filho vivem as mesmas incertezas que atormentam o Filho — entre as quais o temor de ser uma mera continuação, sem identidade própria, do Pai. E até mesmo Satanás, é um desdobramento freudiano: o lado de Jesus que pondera como seria desobedecer ao Pai. “Últimos dias…” nada tem de blasfemo. Ao contrário, termina por situar o sacrifício de Cristo em sua dolorosa dimensão humana.

“Últimos dias no deserto” não é, portanto, um filme sobre religião, mas sobre a alma humana.

 

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