Jéssica Kuhn indica “Oito em Istambul”

Publicado dia 15 de abril de 2021

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“Oito em Istambul”
Nacionalidade: Turquia
Ano: 2020
Direção: Berkun Oya
Gênero: Drama
Duração: 0:50 (oito episódios)
Plataforma: Netflix

Diretor e roteirista, Berkun Oya mostra, com essa série, que também entende de psicanálise. Mecanismos de defesa, complexo de Édipo, transferência e contratransferência desfilam pelos oito episódios e são um prato cheio para os amantes de Freud, mas não só para eles, acredite.

Com ótimo figurino, belos cenários e roteiro muito bem construído, a série oferece um retrato atual da Turquia, através de um mosaico psicológico e cultural do país.

Istambul, que já foi Constantinopla e Bizâncio, está localizada no encontro de dois continentes, com bairros na Europa e a Ásia, às margens do estreito de Bósforo. Local de confluência de vários povos com distintas tradições, através de sua peculiar geografia enriquecida por numerosas edificações históricas, espraiam-se entre seus habitantes os mais diversos costumes e comportamentos – e assim é normal encontrar nas ruas meninas vestidas de shorts ao lado de mulheres muçulmanas cobertas por seus véus.

Essa diversidade cultural nem sempre é tranquila. E a polarização política, ideológica, cultural e religiosa da sociedade turca tem se intensificado desde meados de 2012, quando o partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), do atual presidente Recep Tayyip Erdogan, chegou ao poder.

Em Istambul há lugares onde se vive no século XXI e outros que parecem permanecer no início do século passado. Tradição e religião dirigem a vida de muitas pessoas, mas ainda assim elas acabam tendo que conviver com outras formas de pensar.

Mas a série vai muito além da atual polarização política e social da Turquia. O foco são os conflitos psicológicos dos personagens centrais.

Meryen (Öykü Karayel) é uma jovem empregada doméstica que sonha em se casar. Acometida por desmaios sem causa aparente (conversão histérica), ela começa a se tratar com uma psiquiatra psicanalista, a doutora Peri (Defne Kayalar), que durante as consultas desenvolve uma forte contratransferência. Mas o irmão de Meryen, Yasin (Fatih Artman) acha errado ela se tratar com a psiquiatra e a manda falar com o “hodja”, um líder religioso (interpretado por Settar Tanriögen).

Podemos dizer que o tema central é a repressão das emoções. É esse calar-se que se expressa em sintomas no corpo. Uma  repressão de sentimentos que atinge a todos sem distinção, opressores e oprimidos, homens e mulheres, crianças e adultos.

Afinal o que pode acontecer quando reprimimos as nossas emoções? A psicanálise sabe que podemos adoecer quando permanecemos em silêncio. E é exatamente isso o que ocorre com os personagens da série.

Um belo retrato sobre como o inconsciente encontra formas de se manifestar, apesar de nossas tentativas de calá-lo. Ou nas palavras de Freud: “O Ego não é senhor de sua própria casa”.

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